POR GABRIELA SALES
O avanço da inflação em fevereiro acendeu um sinal de atenção, ainda que os números, à primeira vista, pareçam moderados. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, registrou alta de 0,70% no mês, levando a inflação acumulada em 12 meses para 3,81%. O resultado continua abaixo do teto da meta, mas veio um pouco acima das expectativas do mercado, que projetava algo em torno de 0,6%.
O principal responsável pela alta foi o grupo Educação, que subiu 5,21%, puxado principalmente pelo reajuste das mensalidades escolares no início do ano letivo. Trata-se de um movimento tradicional de janeiro e fevereiro, quando escolas e universidades atualizam valores. Ainda assim, o peso foi significativo: sozinho, o setor respondeu por quase metade da inflação do mês.
Na sequência aparecem os Transportes, com alta de 0,74%, influenciados por combustíveis e custos de deslocamento. Juntos, educação e transportes responderam por cerca de 66% do IPCA de fevereiro, mostrando que a inflação do período esteve concentrada em poucos setores.
O quadro interno, portanto, não indica uma explosão generalizada de preços. Pelo contrário, quando se retira o impacto da educação, o IPCA do mês teria ficado perto de 0,41%, um nível mais confortável. No entanto, o cenário internacional começa a desenhar um desafio adicional e potencialmente mais imprevisível.
A escalada de tensões no Oriente Médio, especialmente envolvendo os Estados Unidos e o Irã, reacende o temor de impactos diretos sobre o mercado global de energia. Sempre que conflitos geopolíticos atingem regiões estratégicas para a produção e o transporte de petróleo, os preços da commodity reagem rapidamente.
O petróleo continua sendo um dos principais termômetros da inflação mundial. Quando o barril sobe, o impacto não se limita ao combustível nos postos. Ele se espalha por toda a cadeia produtiva: aumenta o custo do transporte, encarece a logística, pressiona alimentos e produtos industrializados e, pouco a pouco, chega ao bolso do consumidor.
Para o Brasil, esse efeito costuma aparecer primeiro nos combustíveis. O país produz petróleo, mas ainda depende de importações de derivados e está sujeito às oscilações do mercado internacional. Se o preço do barril subir de forma consistente, a tendência é de pressão sobre a gasolina e o diesel, o que pode reverberar diretamente no grupo Transportes, que já teve destaque no IPCA de fevereiro.
Esse é o ponto de atenção para os próximos meses. A inflação brasileira hoje está relativamente controlada, mas a economia global atravessa um período de instabilidade política e militar. Um conflito mais amplo envolvendo potências internacionais poderia provocar uma disparada no petróleo, reacendendo pressões inflacionárias que, neste momento, parecem sob controle.
Em outras palavras, o número de fevereiro mostra que a inflação brasileira ainda segue dentro de um terreno administrável. Mas ele também funciona como um lembrete: em um mundo interligado, crises que começam a milhares de quilômetros podem, em pouco tempo, chegar à bomba de combustível e, inevitavelmente, ao carrinho de compras do brasileiro.